quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Poema sobre Cupido e Psiquê

Psiquê, uma bela jovem
Deixava Vênus irritada
Então mandou Cupido
Deixar a jovem apaixonada

Mas isso não adiantou
Pois Cupido apaixonado por Psiquê ficou
Mas Vênus não podia saber
Que Cupido era louco por Psiquê

O oráculo a enganou
E no campo Psiquê ficou
Esperando o noivo monstro
Que o Cupido se disfarçou

Feliz com Psiquê
Ele a fez prometer
Que nunca ia ver o rosto
Do seu amado noivo

Mas as irmãs foram visitá-la
E com inveja elas ficaram
Contra Cupido a envenenaram
E ela resolveu desmascará-lo

Descobriu a farsa do marido
Que a abandonou
Foi atrás dele no Olimpo
E com Vênus se deparou

Depois de tarefas realizar
Com o Cupido ela conseguiu ficar
Então virou imortal
E felizes ficaram no final

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Disputa pelo título de mais ferrado

 Uma coisa que me irrita nas pessoas é quando menosprezam a dor do outro e suas dificuldades.
   "Nossa, tenho tanta coisa para fazer hoje."
   "Você? Faz-me rir. Olha para mim, tenho estágio e a faculdade e 300 trabalhos para amanhã."
   Parece uma constante disputa por tudo, até para ver quem está mais ferrado.
   "Ensino fundamental não é nada, recuperação em 10 matérias? Fiquei em 12. Difícil mesmo é o ensino médio."
   "Você acha que seu mundo vai acabar só por que está no ensino médio? Minha filha, estou na faculdade, estou muito pior que você."
  "Jovem não sabe o que é sofrer, não tem contas para pagar, trabalho, filho para cuidar..."
  Vamos parar de nos gabar um pouquinho e prestar atenção no outro? Você não sabe o grau da dificuldade que ele está passando, não tente medir. Que tal ouvir ao invés de sair falando asneira? Ajudar o próximo. Faz bem para alma e para o coração e é bem melhor do que ser narcisista. 
  "Nossa, você tem tudo na vida, não existem problemas para você. Chorando por que é ansiosa? Faça-me o favor, não sabe o que é a vida, quanto drama, tem gente mais necessitada que você, né."
  Não tente diminuir meus problemas. São meus e só eu sei quanto dói. Deixe-me chorar e reclamar do que eu quiser.
  Daqui a pouco vai ser "nossa, você perdeu sua mãe? Eu perdi minha família toda num incêndio, você não tem o direito de sofrer e reclamar mais que eu."
  "Ah, você perdeu uma perna? Pois eu perdi duas, sou mais sofrido que você."
  Me poupe, se poupe, nos poupe.

  Grata.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Respostas

  Às vezes você se pega pensando que a vida é um sonho? Ou que você morreu e não percebeu?
  Ou que talvez sejamos todos partes de um jogo, como The Sims.
  Ou que todos esses pensamentos são só uma tentativa falha de dar um sentido à vida?
  Aliás, por que estamos aqui? Qual nossa missão na Terra? Sou apenas um pontinho insignificante na multidão ou mudarei a história? Que diferença faz se um dia o Sol explodirá e acabará com toda a existência? Não importa se seu nome está nos livros se eles vão ser destruídos em algum momento. Você e Shakespeare serão iguais. Ou talvez você seja mais feliz que ele, e isso vale mais a pena.
  Qual o sentido de viver e depois morrer? O que acontece depois da morte? Essa é a pergunta que mais me instiga, que me faz chorar à noite e ter ansiedade. Não quero deixar de existir, que fique tudo preto, mas o que seria viver nos céus pela eternidade? Onde fica o céu no universo?  Seres de outros planetas tem um céu separado e outro Deus ou vêm para cá também? Quanto tempo dura a eternidade? Me dá um nó na barriga só de pensar como tenho medo da morte. Parece tão...solitário. Não quero ficar sozinha, não quero ficar sozinha. Quero o sol, o vento, a piscina, um bom livro.
  É normal alguém temer esse momento desde a infância? Sinto que vivo mais com medo da morte que vivendo. E se eu não aproveitar a vida? A ideia de reencarnar também me deixa tensa. Não lembrar de mim mesma, dos meus pais, dos meu bichinhos, do meu amor? Acho a ideia de almas se reencontrarem várias e várias vezes bela, mas não quero ser outra pessoa. Quero ser quem sou agora.
  A religião traz algum conforto, acho. Ela prega algo depois da morte e me agarro a isso com toda a minha força. Não ter algo para acreditar é muito triste. Eu surtaria sem a esperança.
  Acho que é algo que nunca vou superar, esse pânico. De tudo acabar, assim, num piscar de olhos. O que evita de não ser eu a escolhida, e sim o outro?
  O infinito também me dá pavor. Até onde vai? E o que tem depois dele? Infinito é uma palavra muito assustadora.
  Desde quando Deus existe? O que existia antes Dele? Quem criou Deus? Não deve ser uma tarefa muito solitária, ser Ele? Ninguém nunca lhe deu uma bronca dizendo "você fez tudo errado?" Gostaria de ter toda essa confiança que Ele possui. Será que Deus tem inseguranças? Será que precisa de um colo e um abraço às vezes? Não está cansado de todo esse trabalho?

  Quando eu era mais nova e perguntava para todo mundo sobre a morte, meu coração se apertava a cada resposta e nenhuma me satisfazia. E continua não satisfazendo. Eu faço perguntas demais, e esse é meu problema. Elas me engolem e eu acabo virando apenas o medo das respostas.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Amélie Poulain

  Eu gosto de apreciar pequenas coisas da vida. Um bom texto. Um brigadeiro. Um abraço. Observar meu namorado na praia, seus cabelos pretos contrastando com a cor da areia. Um cobertor quentinho e um livro com o barulho da chuva batendo na janela. O sorriso de um desconhecido na rua. O sol tímido aquecendo a minha pele num dia frio. 

  Acho que às vezes sou como Amélie Poulain do século XXI, trocando a lady Di pela Kate Middleton. Amélie é uma jovem meiga que aproveita os pequenos momentos, como enfiar a mão bem fundo no saco de cereais. 

  E esses são alguns dos meus pequenos prazeres. Só falta-me um fabuloso destino.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Amor próprio

  "Você precisa se amar primeiro para poder amar o outro." Acho que essa é umas das frases mais sem-noção que já ouvi na minha vida. Eu não me amo, nunca me amei. Suporto minha presença, às vezes sou capaz de gostar da minha própria companhia. Mas me amar? Não, amar já é uma palavra muito forte para se tratar do que sinto por mim. Agora dizer que não sou capaz de amar os outros porque não me amo é a maior besteira. Eu amo meus pais, minha cadelinha, meu namorado, meus amigos. E não venha se meter no tipo de amor que sinto. Claro, a vida seria mil vezes mais fácil se eu não vivesse num pé de guerra comigo mesma. As crises de ansiedade talvez fossem menores. As lágrimas talvez escorressem menos. E essa vontade de não existir por achar que não mereço tudo que eu tenho poderia desaparecer.
  Eu queria me amar, de verdade. Mas acho que por querer tanto, não consigo. Parece forçado, não natural. Como amar a mim mesma quando vejo minha cara inchada de choro, quando lembro dos vexames e vergonhas e burradas que passei, sabendo cada defeitozinho que possuo? Como posso me amar sabendo todos os meus pensamentos, sem poder esconder nenhum de mim mesma, apenas para fingir que aquilo não passou pela minha cabeça?

  Em "Cisne Negro" a protagonista ouve a seguinte frase: "A única pessoa que está em seu caminho é você mesma." Bem, essa frase é muito mais verdade para mim que a primeira. Sou sempre eu que me retraio, que freio meus sonhos quando eles estão se tornando realidade. Penso: "sou mesmo merecedora de toda essa maravilha?", porque eu realmente acho que não sou, que não mereço. Que minha existência na Terra não faz muito sentido. Não vim para mudar o mundo, por mais que queira. Se eu desaparecer, talvez algumas pessoas sintam minha falta de primeira, mas depois seguirão em frente como se eu nunca houvesse existido. Eu sou apenas mais uma alma perdida nesse enorme mundo cheio de possibilidades melhores. Ou talvez eu imagine isso tudo e esteja redondamente enganada. Não sei.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A fada

  Parece mais um dia comum. Meus pais já voaram para o trabalho e, da minha cama, posso ouvir minha irmã cantarolar uma melodia alegre, como faz todas as manhãs, enquanto prepara a comida. Coloco os pés no chão, com o pensamento de que, parece, mas hoje não é um dia comum. É 25 de dezembro. Meu aniversário. E o Natal, para os humanos.
  As fadas não comemoram o Natal, pois nossas crenças são outras. Para nós, há apenas a Criadora e a Traidora. Não temos feriados pelos feitos da Criadora. Apenas pedimos sua benção e proteção (“e que não tenhamos os pensamentos de sua filha, Abgail, a Traidora”.) Também não pagamos pelos erros de Abgail, filha de nossa própria Criadora, que se apaixonou por um humano e deixou nosso reino e sua imortalidade para viver como um deles.
  Apesar da maioria de nós não suportar os humanos (“eles não voam! Não possuem poderes! Tiram férias! Não são focados! Como podem viver assim?”), eu os acho intrigantes. Temos nossas festas e nossas alegrias e, acredite em mim, elas são incríveis, mas meu povo não é tão sentimental. Nossas emoções não transparecem tanto quanto a deles. Gosto de observá-los. Como eles passam de felizes, para raivosos, para melancólicos em apenas um minuto! Fascinante!
  Coloco meu vestido de trabalho, uma peça lisa e laranja, com o comprimento até o joelho e alças grossas, que se entrelaçam nas minhas costas cobertas. Sua cor se contrapõe com as minhas asas, de um branco tão vibrante que atrai todos por perto. Eu sou o que consideram bonito, com meus cabelos ruivos, como o da Criadora (“Uma menina abençoada”), e curtos, diferentemente do dela, com uma irritante franja em minha testa (arrependo-me profundamente desse corte).
  Adentro na sala e sorrio para minha irmã.
  - Bom dia, minha flor. Ansiosa para hoje? – Pergunta ela, colocando um pão tostado na minha frente.
  Esqueci de comentar que hoje faço 18 e, por isso, poderei fazer minha primeira visita oficial ao mundo dos humanos? É claro que meu povo não sabe que já os visitei antes.
  - Um pouco nervosa, na verdade. – Minto; essa é a resposta que esperam de mim.
  Minha irmã me encara com seus olhos castanhos. Eles são bem intimidantes.
  - Não precisa de nervosismo. Humanos são completamente estranhos. Não irá gostar deles, choram por tudo. E como mentem e bebem! Parecem uns porcos. – Seu rosto se contorce em uma careta de nojo, enfeando minha irmã. Ela não possui sardas como eu e é muito magra. Seu cabelo é de um tom mais escuro e já está arrumado em seu perfeito coque.
  Ela alisa seu vestido azul e pega meu prato, ainda que eu não tenha acabado:
  - Está pronta? Te deixarei no Lik e irei para o meu trabalho.
  Hoje eu não trabalho. Tenho que me encaminhar até o Lik, um moderno prédio espelhado onde me encontrarei com o prefeito e mais três fadas e poderemos embarcar para a Terra em uma nave esquisita e pequena. Se fôssemos simplesmente voando, explodiríamos assim que chegássemos no espaço, me disseram. Não serei eu a duvidar.
  Minha irmã trabalha nas plantações, enquanto eu trabalho na fábrica têxtil, por isso nossas cores são diferentes. Somos designadas a nossas tarefas quando pequenas, assim que temos capacidade de demonstrar nossos dons. Mamãe é uma cantora maravilhosa e papai um excelente médico. Não recebemos salário; recompensas só aumentam a cobiça e isso é coisa de humanos. Fadas são gentis, amáveis e livres de desejos maliciosos. Ou seríamos: alguns de nós se renderam e viraram humanos, como a Traidora, e é assim que são chamados também. Se apaixonam pelo poder, pela fama, ou até mesmo por um deles. Os últimos não são tão desprezados. Valorizamos o amor acima de tudo, mas e o amor pela sua família? Pelos amigos? Não podemos deixá-los para trás.
  Saímos de nossa casinha de madeira, idêntica a todas as outras da cidade, apenas diferenciada pela cor do telhado. Nossas telhas formavam um V de cabeça para baixo púrpura, como as asas da minha irmã, só trocando a posição da letra. Ela deposita a mão direita nas minhas costas, entre minhas asas, e andamos lentamente (culpa desses saltos, ainda não me acostumei com eles. Sapatilhas são mil vezes melhores) nesse dia claro, com o céu límpido e o sol brincando em nossas peles.
  A caminhada não é longa, por isso não voamos. Voar é exaustivo e requer muito esforço. Assim que chegamos na porta do Lik, minha irmã me abraça.
  - Boa sorte e tenha um feliz aniversário. Verá como os humanos são chatos.
  Rimos uma para a outra e a observo levantar voo e sumir no horizonte, sem olhar para trás. Respiro fundo e entro no prédio.
  - Bom dia, docinho. O que deseja? – A voz suave pertence a uma mulher de pele negra e cabelos encaracolados, presos em outro coque arrumado. Sua maquiagem está impecável. O que a estraga são seus dentes grandes e tortos, que parecem não caber em sua boa. Por Cleo, nossa Criadora, pensar em beleza e feiura é atitude de humanos!
  -Hã, faço 18 hoje. – respondo, completamente fora do padrão. A frase perfeita, ensaiada tantas vezes com mamãe deveria ser “Bom dia, senhorita. Estou aqui para encontrar o senhor prefeito Edgar Hoolug e partir para a viagem à Terra.” Então informá-la meu nome completo e minha data de nascimento, juntamente com meu endereço e nome dos meus pais. Pelo visto, já comecei falhando.
  Ela ergue as sobrancelhas, claramente percebendo meu erro. – Certo. Aproxime-se para organizarmos seus dados.
  Após concluída a parte maçante, que consistia em uma densa leitura de regras e explicações (creio que tudo seja para poupar o prefeito desse trabalho), a moça me indicou o caminho. Segui o longo corredor, porém, ao invés de virar à direita, fui para a esquerda. Não por engano.
  - Que demora. – Disse Thomas, sentado logo mais à frente, em seu posto de segurança.
  - Você não deveria, sei lá, estar com o prefeito?
  - Hoje estou encarregado de levar a donzela aos aposentos do senhor Hoolug para que ela possa conhecer os humanos pela primeiríssima vez. – Como se sua voz já não estivesse repleta de sarcasmo, ele me lança seu sorriso mais sacana, aquele que deixa minhas pernas bambas.
  Thomas é meu namorado, futuro noivo, já que em nosso reino os casamentos ocorrem cedo. O nosso amor é antigo e recheado de zombarias um com o outro. Os mais velhos nos adoram, pois gostamos de mostrar o amor aos outros e geralmente andamos de mão dadas na rua. Também temos nossos segredos, como todo bom casal.
  Thomas trabalha no Lik há quatro anos, desde que completou 16, sendo indicado pelo pai, que também tem um emprego aqui, como secretário do prefeito. Por isso, ele tem acesso a chaves e locais que ninguém tem. Como a sala onde ficam as naves capazes de nos conduzir a Terra. O manuseio delas não é difícil e então, de vez em quando, nós dois visitamos os humanos, sem que ninguém saiba, e passamos um dia romântico em outro planeta. Aliado a nossa curiosidade por esses seres, há também o fato de compartilharmos um segredo só nosso e a adrenalina de fazer algo errado e não sermos pegos.
  Beijo-o para fazê-lo calar. E vamos fingir que o beijei apenas por isso, e não porque seus lábios finos me atraem. Huuum, gosto de canela.
  Sorrio assim que nos separamos. Thomas tem olhos cinzas e cabelo loiro, bem cortado.
  - Bem, será minha primeira ida à Terra sem você. – Sussurro e o beijo de novo. Ele ajeita meu coque e dá uma risadinha. Eu nunca soube fazer um direito. Vou embora logo depois.
  Olho para trás e o vejo parado, imponente e alto, com seus músculos e toda a sua força adquirida no treinamento para segurança. Ele pisca para mim e eu retribuo mandando um beijo.
  Sigo em frente e entro onde deveria ter ido primeiro. Entretanto, não podia passar o dia fora sem ver Thomas.
  Abro a porta sem bater e vejo que todos os três outros parceiros de minha viagem já estão acomodados em suas poltronas, uma ao lado da outra, com os cintos devidamente colocados. O prefeito, em pé, vira-se para mim e abre um enorme sorriso.
  - Querida, estávamos a sua espera. Entre, entre. Presumo que srta.Linfg já tenha lhe explicado tudo.
  Dois homens, ao lado do prefeito, me conduzem até a cadeira do canto, a única vazia, e colocam o meu cinto. Eles descem do palanque e fecham a porta. A nave é apenas isso. Quatro assentos, postos ao lado do outro e apertados num pequeno corredor, com uma porta horizontal de vidro. Vejo o prefeito sorrindo e acenando para nosso transporte minúsculo e os guardas de branco entrarem na parte da frente, onde pilotarão.
  A viagem é curta, apenas 20 minutos, e super desconfortável. Sinto minhas asas presas e foco em olhar a dos meus companheiros, para me distrair durante o percurso. Nenhuma palavra é trocada por nós; todos parecem bastante tensos.
A do garoto ao meu lado é verde da cor do mar e tento me deter aos detalhes. A asa dele possui umas linhas em forma de círculos, bem delicada. A da garota logo depois é mais chamativa. Eu a reconheço só pelas suas cores. É Louise, minha vizinha, e ela nunca passa despercebida, já que possui sete cores em suas costas. Os tons do arco-íris, num estilo dégradée. Nosso último companheiro tem um tipo diferente de asa. É vermelha, contudo, há bolotas pretas espalhadas por ela, como uma joaninha. Encaro-a por tanto tempo que o menino fica desconfortável e desvio o olhar. O trajeto é tão rápido que, infelizmente, não dá para ver nada do universo passando por nós. Por isso, fecho os olhos até o percurso acabar.
  A nave dá um tranco e nossa porta se abre automaticamente e os cintos sobem ao mesmo tempo. Sinto-me livre. Sou a primeira a descer da nave. Está quente, e no nosso reino nunca faz calor, nem frio. A temperatura é sempre agradável. Gosto de ter essa sensação sob minha pele. Meus companheiros estão completamente assustados, enquanto eu estou feliz, como se reencontrasse uma antiga amiga. Tão feliz que flutuo a alguns centímetros do chão. Percebo que minhas asas estão batendo sozinhas, levemente, de tanta alegria. Voar exige concentração na dominação da felicidade. Respiro fundo, para não exagerar e acabar perdendo o controle e voando para perto dos aviões.
  Meus companheiros finalmente perdem o medo e se aproximam devagar. Estamos em um penhasco, olhando os montes e os vales lá embaixo. As pessoas e seus carros parecem formiguinhas daqui de cima. Posso ler o pensamento da maioria, sentir as emoções, como meu poder me permite. Sento-me perto de uma árvore nesse enorme tapete verde em que piso e observo as pessoas, minhas asas querendo bater de tanta empolgação.
  Uma maçã cai perto de mim e a agarro. Está deliciosa. Tenho o dia todo pela frente. O sol está no alto. Daqui a pouco, quando todos estiverem mais calmos, desceremos e conviveremos com os humanos mais de perto, nossas asas (assim como nossa nave) camufladas.
  Essa experiência serviria para mostrar as fadas mais novas o quão abominável é o mundo dos humanos. Caótico. Na maior parte das vezes, funciona, minha irmã mesmo acha isso depois que passou por aqui. Mas eu não. Eu adoro.

  Feliz aniversário, digo para mim mesma. E feliz natal.  

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Primeira vez

  Hoje eu fui ao mercado para comprar lasanha pronta para o almoço já que estava com pressa. Só mais tarde fui perceber que era a primeira vez que fazia compras sozinha, não que essa informação seja relevante para a história.
  Eu pulava de fila em fila, procurando a menor e, distraída, parei na que tinha menos pessoas. Coloquei a cesta no chão e comecei a mexer no celular. Alguns minutos depois um senhora me para e pergunta, educadamente:
  - Com licença, a senhora está grávida?
  Assim que ela fez a pergunta, minha autoestima foi por água a baixo. Toda mulher (ou quase toda) teme essa fatídica pergunta e o dia que ela irá aparecer. Minha primeira vez nem demorou tanto assim. Minha reação imediata foi olhar para a minha barriga, checar se ela estava mesmo muito grande assim para me confundirem com uma grávida. Eu sei que tinha engordado um pouco devido a quantidade de doce que como, mas estava mesmo tão gorda?
  Soltei um não meio assustado, meio surpreso e a senhora sorriu um pouco sem graça e pude ver nos seus olhos que ela esperava essa resposta, o que me deu um certo alívio. Ela não me achou gorda, afinal.
 - É que a senhora parou na fila preferencial. - disse, apontando para a placa enorme bem à minha frente. Só uma anta mesmo não veria o aviso.

  Sorri, com vergonha e agradeci pelo aviso. Ela não disse por irritação, queria apenas me alertar mesmo para não perder meu precioso tempo numa fila que a caixa poderia se recusar a me atender por um simples erro meu. Acho que meu pânico foi desnecessário, mas, às vezes, no escuro, penso qual será a próxima vez que me confundirão com uma grávida e se a confusão será causada por uma placa ou pelo tamanho da minha barriga. Coitada da minha autoestima.