quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Amores líquidos

  - Não fique tão decepcionada, meu bem. - disse meu amigo ao ver meu estado após levar um pé na bunda - Infelizmente as pessoas amam assim no século XXI, uma hora estão se declarando para você e só basta o tempo de ver um vídeo de cachorrinho no facebook para você estar solteira de novo. Já ouviu falar em amor líquido? As pessoa tem tanta pressa de tudo que até o amor precisa durar pouco, ser rápido. É aí que elas se enganam. O amor, o verdadeiro amor, não tem pressa, não tem hora, não termina assim com uma mensagem de whatsapp. Não fique ansiosa para encontrar o seu, não deixe que as fotos de casais nos instagram te deprimam, querendo ter um romance daqueles, talvez seja apenas falso, apenas para fingir estar feliz ao lado da pessoa. Sabe por que, Roxy? Os amores hoje em dia acabam na segunda batida do coração. Não se assuste, é assim. Não deixe essa pressa, de começar e acabar, te afligir. As Parcas já decidiram nosso destino, deixe elas tomarem seu tempo, elas são mais antigas que os deuses gregos, possuem todo o tempo do mundo. O amor pode bater a sua porta amanhã, daqui a 5 ou 50 anos. Não importa. Ele virá.

  Assenti e o abracei, feliz por ter contato pele-com-pele em um momento que quase todos os consolos são feitos por uma tela de celular.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Século XXI

   Família tradicional brasileira. Um casal hétero, dois filhos, um cachorro, a(s) amante(s). Apartamento na zona sul do Rio. O marido chega a casa na hora do Jornal Nacional, não olha na cara da esposa, pede apenas a janta. Tira os sapatos, a gravata. Assiste a tv. Os filhos no quarto, fingindo fazer o dever de casa enquanto mexem no tablet. Os pais não se preocupam em perguntar sobre o dia deles mesmo, como vão saber em que matérias eles possuem dúvidas? O marido diz que passou um dia atarefado no trabalho. Muita papelada, muita reunião. Na verdade, encontrou a amante durante o almoço, naquele motel de quinta no centro. Depois do trabalho passou meia horinha com a outra antes de ir para casa. O perfume dela ainda estava delicadamente impregnado em seu terno, sua mulher apenas fingia que não via. Dois ditados resumem a vida de muitas mulheres casadas: "o que os olhos não veem, o coração não sente"/ "a ignorância é uma benção". É melhor não mencionar, é mais cômodo ficar junto. Ora, há toda a complicação do divórcio, toda a burocracia e o estresse. Coitada das crianças. A situação financeira vai piorar. Não, não, melhor continuar tudo como está. Manter essa linda família e postar várias fotos nas redes sociais das viagens para a Disney. Esse é o Brasil que querem manter.  

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Disfarce

   Era uma vez uma bela mulher. Todos a adoravam, pois sua beleza não era apenas externa: ela tinha um brilho mágico. Por onde ela passava, ela fazia amigos, encantando a todos com suas risadas e sua alegria. Mas toda essa felicidade era uma casca. Por dentro havia uma mulher infeliz que usava seu sorriso para esconder a amargura. E toda a tristeza de sua vida provinha de uma pessoa: seu marido, que a humilhava, xingando-a de gorda, grudenta, sebosa, manhosa, irresponsável, estúpida e outros adjetivos deploráveis. Humilhava-a em frente aos amigos e parentes, acrescentando palavrões e rindo como se fosse tudo uma piada. Aquelas palavras feriam, mas nossa heroína disfarçava bem. Brincava, se divertia, mas tudo guardava. Cada palavra era uma facada no coração. Quem a via passar na rua não imaginava o quanto ela sofria, o quanto ela ainda sofre. O quanto se sente solitária ao deitar na cama ao lado daquele homem que ela tanto ama e amou e receber dele nem ódio, apenas indiferença. Ser trocada por uma tela de celular. Ela trocaria tudo por amor. Ela só queria ser amada. Por ele. Ela só queria ser feliz como os que amam e são amados de volta.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Desculpe-me

  Esse texto é no fundo um pedido de desculpas.
  Hoje eu voltava para casa, com essa alergia típica de inverno do louco tempo carioca (esfria-esquenta-esfria) quando, ao espirrar, um senhor, à porta de sua casa, me diz:
  -Ih, minha filha, também estou com essa alergia braba.
  Eu apenas dei um sorriso amarelo e continuei andando. Uns dois minutos depois, bateu-me um peso na consciência. Aquele velhinho talvez fosse solitário e estivesse apenas querendo uma companhia, ouvir uma voz diferente dos sussurros dos que já se foram. Talvez ele estivesse apenas sendo simpático, sem segundas intenções.
  Então, peço-lhe desculpas, meu amigo. Sei que esse pedido não chegará ao senhor, e, se chegar, talvez você nem se lembre desse episódio que durou 5 segundos. Mas minha consciência fica mais tranquila sabendo que pude externar minha angústia.
  Peço desculpas por não ter te respondido propriamente. Mas espero que entenda que no fundo a culpa não é minha. A antiga eu nunca teria te ignorado. Mas essa antiga eu não existe mais. Ela sofreu decepções cada vez que saiu na rua. Ela não aguenta mais olhos devoradores que a comem inteira e a deixam com vergonha, desejando não estar ali, desejando voltar para casa, trocar de roupa. Ela não aguenta mais velhos com seus sorrisos safados que a enojam. Ela não aguenta mais ouvir um "bom dia" malicioso. Ou encoxadas no metrô. Ou gestos obscenos proferidos por homens sujos. Ou buzinadas e risadas deselegantes. E aí parece que todo ser do sexo masculino que encontramos na rua quer zombar de nós, nos humilhar. Como se eles nos vissem apenas como meros objetos feitos para satisfazê-los. E não sou apenas eu que estou cansada disso, somos todas. Isso acaba com nosso dia, nos deixa mal.

  Então, desculpe, Senhor. Eu percebi que essa não era sua intenção. Mas a sociedade me ensinou a me defender de qualquer ameaça que tenha um órgão sexual diferente do meu.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Pânico

   Há um tempo entro em estado de pânico cada vez que saio sozinha. Veja, é tanta notícia que aparece no meu facebook ou dá na televisão, que é impossível não ficar neurótica. Então agora cada folhinha de árvore que cai na minha frente me assusta (sim, de verdade, meu coração quase pula da boca quando isso acontece). Cada moto barulhenta, bicicleta que passa perto demais, carro muito devagar. Todo homem sozinho me faz gelar por dentro. Até gritos entre velhos amigos me fazem pular (tenho a impressão que estão tramando algum assalto?), pessoas correndo (às vezes simplesmente se exercitando, mas sempre parecem estar correndo de/atrás de um assaltante).

   Desenvolvi uma quase fobia também de crianças. Sim, crianças. Infelizmente é uma realidade nesse Rio de Janeiro onde crianças em bando furtam pessoas desavisadas como eu. Agora não posso ver nenhum molequinho que me apavoro, das pernas ficarem bambas. Penso a que ponto chegamos de crianças assaltarem e de nos assustarmos com elas, sendo que elas eram para ser a coisa mais pura de nossa humanidade. Infelizmente a sociedade está as corrompendo rápido demais.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Rotina

Acordar cedo. Pegar trânsito. Estresse. Lotação do metrô. Mau humor. Muito trabalho. Nenhum tempo livre, nenhuma diversão. Aguentar gente mal educada. Estudar coisas que não gosta. Dormir pouco. E a vida, quando começa? Para que se matar de esforço para 1 mês de férias? Ser feliz apenas em 1 mês de 12? Já percebeu o quanto é errado contarmos os dias para o final de semana? Significa que a semana é uma merda. E aí o tempo passa, você não aproveita a vida e depois morre. Contou todos os dias que eles acabaram e o dinheiro sobrou. Cada um em seu mundo, sem ligar para os outros, no seu próprio sofrimento. E a vida passando. E a gente só estudando sem aproveitar. Um verdadeiro desperdício.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Poema sobre Cupido e Psiquê

Psiquê, uma bela jovem
Deixava Vênus irritada
Então mandou Cupido
Deixar a jovem apaixonada

Mas isso não adiantou
Pois Cupido apaixonado por Psiquê ficou
Mas Vênus não podia saber
Que Cupido era louco por Psiquê

O oráculo a enganou
E no campo Psiquê ficou
Esperando o noivo monstro
Que o Cupido se disfarçou

Feliz com Psiquê
Ele a fez prometer
Que nunca ia ver o rosto
Do seu amado noivo

Mas as irmãs foram visitá-la
E com inveja elas ficaram
Contra Cupido a envenenaram
E ela resolveu desmascará-lo

Descobriu a farsa do marido
Que a abandonou
Foi atrás dele no Olimpo
E com Vênus se deparou

Depois de tarefas realizar
Com o Cupido ela conseguiu ficar
Então virou imortal
E felizes ficaram no final