quarta-feira, 3 de maio de 2017

A fada

  Parece mais um dia comum. Meus pais já voaram para o trabalho e, da minha cama, posso ouvir minha irmã cantarolar uma melodia alegre, como faz todas as manhãs, enquanto prepara a comida. Coloco os pés no chão, com o pensamento de que, parece, mas hoje não é um dia comum. É 25 de dezembro. Meu aniversário. E o Natal, para os humanos.
  As fadas não comemoram o Natal, pois nossas crenças são outras. Para nós, há apenas a Criadora e a Traidora. Não temos feriados pelos feitos da Criadora. Apenas pedimos sua benção e proteção (“e que não tenhamos os pensamentos de sua filha, Abgail, a Traidora”.) Também não pagamos pelos erros de Abgail, filha de nossa própria Criadora, que se apaixonou por um humano e deixou nosso reino e sua imortalidade para viver como um deles.
  Apesar da maioria de nós não suportar os humanos (“eles não voam! Não possuem poderes! Tiram férias! Não são focados! Como podem viver assim?”), eu os acho intrigantes. Temos nossas festas e nossas alegrias e, acredite em mim, elas são incríveis, mas meu povo não é tão sentimental. Nossas emoções não transparecem tanto quanto a deles. Gosto de observá-los. Como eles passam de felizes, para raivosos, para melancólicos em apenas um minuto! Fascinante!
  Coloco meu vestido de trabalho, uma peça lisa e laranja, com o comprimento até o joelho e alças grossas, que se entrelaçam nas minhas costas cobertas. Sua cor se contrapõe com as minhas asas, de um branco tão vibrante que atrai todos por perto. Eu sou o que consideram bonito, com meus cabelos ruivos, como o da Criadora (“Uma menina abençoada”), e curtos, diferentemente do dela, com uma irritante franja em minha testa (arrependo-me profundamente desse corte).
  Adentro na sala e sorrio para minha irmã.
  - Bom dia, minha flor. Ansiosa para hoje? – Pergunta ela, colocando um pão tostado na minha frente.
  Esqueci de comentar que hoje faço 18 e, por isso, poderei fazer minha primeira visita oficial ao mundo dos humanos? É claro que meu povo não sabe que já os visitei antes.
  - Um pouco nervosa, na verdade. – Minto; essa é a resposta que esperam de mim.
  Minha irmã me encara com seus olhos castanhos. Eles são bem intimidantes.
  - Não precisa de nervosismo. Humanos são completamente estranhos. Não irá gostar deles, choram por tudo. E como mentem e bebem! Parecem uns porcos. – Seu rosto se contorce em uma careta de nojo, enfeando minha irmã. Ela não possui sardas como eu e é muito magra. Seu cabelo é de um tom mais escuro e já está arrumado em seu perfeito coque.
  Ela alisa seu vestido azul e pega meu prato, ainda que eu não tenha acabado:
  - Está pronta? Te deixarei no Lik e irei para o meu trabalho.
  Hoje eu não trabalho. Tenho que me encaminhar até o Lik, um moderno prédio espelhado onde me encontrarei com o prefeito e mais três fadas e poderemos embarcar para a Terra em uma nave esquisita e pequena. Se fôssemos simplesmente voando, explodiríamos assim que chegássemos no espaço, me disseram. Não serei eu a duvidar.
  Minha irmã trabalha nas plantações, enquanto eu trabalho na fábrica têxtil, por isso nossas cores são diferentes. Somos designadas a nossas tarefas quando pequenas, assim que temos capacidade de demonstrar nossos dons. Mamãe é uma cantora maravilhosa e papai um excelente médico. Não recebemos salário; recompensas só aumentam a cobiça e isso é coisa de humanos. Fadas são gentis, amáveis e livres de desejos maliciosos. Ou seríamos: alguns de nós se renderam e viraram humanos, como a Traidora, e é assim que são chamados também. Se apaixonam pelo poder, pela fama, ou até mesmo por um deles. Os últimos não são tão desprezados. Valorizamos o amor acima de tudo, mas e o amor pela sua família? Pelos amigos? Não podemos deixá-los para trás.
  Saímos de nossa casinha de madeira, idêntica a todas as outras da cidade, apenas diferenciada pela cor do telhado. Nossas telhas formavam um V de cabeça para baixo púrpura, como as asas da minha irmã, só trocando a posição da letra. Ela deposita a mão direita nas minhas costas, entre minhas asas, e andamos lentamente (culpa desses saltos, ainda não me acostumei com eles. Sapatilhas são mil vezes melhores) nesse dia claro, com o céu límpido e o sol brincando em nossas peles.
  A caminhada não é longa, por isso não voamos. Voar é exaustivo e requer muito esforço. Assim que chegamos na porta do Lik, minha irmã me abraça.
  - Boa sorte e tenha um feliz aniversário. Verá como os humanos são chatos.
  Rimos uma para a outra e a observo levantar voo e sumir no horizonte, sem olhar para trás. Respiro fundo e entro no prédio.
  - Bom dia, docinho. O que deseja? – A voz suave pertence a uma mulher de pele negra e cabelos encaracolados, presos em outro coque arrumado. Sua maquiagem está impecável. O que a estraga são seus dentes grandes e tortos, que parecem não caber em sua boa. Por Cleo, nossa Criadora, pensar em beleza e feiura é atitude de humanos!
  -Hã, faço 18 hoje. – respondo, completamente fora do padrão. A frase perfeita, ensaiada tantas vezes com mamãe deveria ser “Bom dia, senhorita. Estou aqui para encontrar o senhor prefeito Edgar Hoolug e partir para a viagem à Terra.” Então informá-la meu nome completo e minha data de nascimento, juntamente com meu endereço e nome dos meus pais. Pelo visto, já comecei falhando.
  Ela ergue as sobrancelhas, claramente percebendo meu erro. – Certo. Aproxime-se para organizarmos seus dados.
  Após concluída a parte maçante, que consistia em uma densa leitura de regras e explicações (creio que tudo seja para poupar o prefeito desse trabalho), a moça me indicou o caminho. Segui o longo corredor, porém, ao invés de virar à direita, fui para a esquerda. Não por engano.
  - Que demora. – Disse Thomas, sentado logo mais à frente, em seu posto de segurança.
  - Você não deveria, sei lá, estar com o prefeito?
  - Hoje estou encarregado de levar a donzela aos aposentos do senhor Hoolug para que ela possa conhecer os humanos pela primeiríssima vez. – Como se sua voz já não estivesse repleta de sarcasmo, ele me lança seu sorriso mais sacana, aquele que deixa minhas pernas bambas.
  Thomas é meu namorado, futuro noivo, já que em nosso reino os casamentos ocorrem cedo. O nosso amor é antigo e recheado de zombarias um com o outro. Os mais velhos nos adoram, pois gostamos de mostrar o amor aos outros e geralmente andamos de mão dadas na rua. Também temos nossos segredos, como todo bom casal.
  Thomas trabalha no Lik há quatro anos, desde que completou 16, sendo indicado pelo pai, que também tem um emprego aqui, como secretário do prefeito. Por isso, ele tem acesso a chaves e locais que ninguém tem. Como a sala onde ficam as naves capazes de nos conduzir a Terra. O manuseio delas não é difícil e então, de vez em quando, nós dois visitamos os humanos, sem que ninguém saiba, e passamos um dia romântico em outro planeta. Aliado a nossa curiosidade por esses seres, há também o fato de compartilharmos um segredo só nosso e a adrenalina de fazer algo errado e não sermos pegos.
  Beijo-o para fazê-lo calar. E vamos fingir que o beijei apenas por isso, e não porque seus lábios finos me atraem. Huuum, gosto de canela.
  Sorrio assim que nos separamos. Thomas tem olhos cinzas e cabelo loiro, bem cortado.
  - Bem, será minha primeira ida à Terra sem você. – Sussurro e o beijo de novo. Ele ajeita meu coque e dá uma risadinha. Eu nunca soube fazer um direito. Vou embora logo depois.
  Olho para trás e o vejo parado, imponente e alto, com seus músculos e toda a sua força adquirida no treinamento para segurança. Ele pisca para mim e eu retribuo mandando um beijo.
  Sigo em frente e entro onde deveria ter ido primeiro. Entretanto, não podia passar o dia fora sem ver Thomas.
  Abro a porta sem bater e vejo que todos os três outros parceiros de minha viagem já estão acomodados em suas poltronas, uma ao lado da outra, com os cintos devidamente colocados. O prefeito, em pé, vira-se para mim e abre um enorme sorriso.
  - Querida, estávamos a sua espera. Entre, entre. Presumo que srta.Linfg já tenha lhe explicado tudo.
  Dois homens, ao lado do prefeito, me conduzem até a cadeira do canto, a única vazia, e colocam o meu cinto. Eles descem do palanque e fecham a porta. A nave é apenas isso. Quatro assentos, postos ao lado do outro e apertados num pequeno corredor, com uma porta horizontal de vidro. Vejo o prefeito sorrindo e acenando para nosso transporte minúsculo e os guardas de branco entrarem na parte da frente, onde pilotarão.
  A viagem é curta, apenas 20 minutos, e super desconfortável. Sinto minhas asas presas e foco em olhar a dos meus companheiros, para me distrair durante o percurso. Nenhuma palavra é trocada por nós; todos parecem bastante tensos.
A do garoto ao meu lado é verde da cor do mar e tento me deter aos detalhes. A asa dele possui umas linhas em forma de círculos, bem delicada. A da garota logo depois é mais chamativa. Eu a reconheço só pelas suas cores. É Louise, minha vizinha, e ela nunca passa despercebida, já que possui sete cores em suas costas. Os tons do arco-íris, num estilo dégradée. Nosso último companheiro tem um tipo diferente de asa. É vermelha, contudo, há bolotas pretas espalhadas por ela, como uma joaninha. Encaro-a por tanto tempo que o menino fica desconfortável e desvio o olhar. O trajeto é tão rápido que, infelizmente, não dá para ver nada do universo passando por nós. Por isso, fecho os olhos até o percurso acabar.
  A nave dá um tranco e nossa porta se abre automaticamente e os cintos sobem ao mesmo tempo. Sinto-me livre. Sou a primeira a descer da nave. Está quente, e no nosso reino nunca faz calor, nem frio. A temperatura é sempre agradável. Gosto de ter essa sensação sob minha pele. Meus companheiros estão completamente assustados, enquanto eu estou feliz, como se reencontrasse uma antiga amiga. Tão feliz que flutuo a alguns centímetros do chão. Percebo que minhas asas estão batendo sozinhas, levemente, de tanta alegria. Voar exige concentração na dominação da felicidade. Respiro fundo, para não exagerar e acabar perdendo o controle e voando para perto dos aviões.
  Meus companheiros finalmente perdem o medo e se aproximam devagar. Estamos em um penhasco, olhando os montes e os vales lá embaixo. As pessoas e seus carros parecem formiguinhas daqui de cima. Posso ler o pensamento da maioria, sentir as emoções, como meu poder me permite. Sento-me perto de uma árvore nesse enorme tapete verde em que piso e observo as pessoas, minhas asas querendo bater de tanta empolgação.
  Uma maçã cai perto de mim e a agarro. Está deliciosa. Tenho o dia todo pela frente. O sol está no alto. Daqui a pouco, quando todos estiverem mais calmos, desceremos e conviveremos com os humanos mais de perto, nossas asas (assim como nossa nave) camufladas.
  Essa experiência serviria para mostrar as fadas mais novas o quão abominável é o mundo dos humanos. Caótico. Na maior parte das vezes, funciona, minha irmã mesmo acha isso depois que passou por aqui. Mas eu não. Eu adoro.

  Feliz aniversário, digo para mim mesma. E feliz natal.  

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Primeira vez

  Hoje eu fui ao mercado para comprar lasanha pronta para o almoço já que estava com pressa. Só mais tarde fui perceber que era a primeira vez que fazia compras sozinha, não que essa informação seja relevante para a história.
  Eu pulava de fila em fila, procurando a menor e, distraída, parei na que tinha menos pessoas. Coloquei a cesta no chão e comecei a mexer no celular. Alguns minutos depois um senhora me para e pergunta, educadamente:
  - Com licença, a senhora está grávida?
  Assim que ela fez a pergunta, minha autoestima foi por água a baixo. Toda mulher (ou quase toda) teme essa fatídica pergunta e o dia que ela irá aparecer. Minha primeira vez nem demorou tanto assim. Minha reação imediata foi olhar para a minha barriga, checar se ela estava mesmo muito grande assim para me confundirem com uma grávida. Eu sei que tinha engordado um pouco devido a quantidade de doce que como, mas estava mesmo tão gorda?
  Soltei um não meio assustado, meio surpreso e a senhora sorriu um pouco sem graça e pude ver nos seus olhos que ela esperava essa resposta, o que me deu um certo alívio. Ela não me achou gorda, afinal.
 - É que a senhora parou na fila preferencial. - disse, apontando para a placa enorme bem à minha frente. Só uma anta mesmo não veria o aviso.

  Sorri, com vergonha e agradeci pelo aviso. Ela não disse por irritação, queria apenas me alertar mesmo para não perder meu precioso tempo numa fila que a caixa poderia se recusar a me atender por um simples erro meu. Acho que meu pânico foi desnecessário, mas, às vezes, no escuro, penso qual será a próxima vez que me confundirão com uma grávida e se a confusão será causada por uma placa ou pelo tamanho da minha barriga. Coitada da minha autoestima.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Inveja

   Uma vez meu namorado me disse que a pessoa que ele mais amava era o irmão. Senti inveja, admito. Não do irmão, por ser o mais amado. Sei que meu namorado me ama - sou a garota que ele mais ama, e não duvido do seu amor. São amores diferentes, simplesmente não dá para comparar. Senti inveja de não ter uma relação assim. Desejei ter um irmão, ou uma irmã.
   Veja bem, ser filha única tem suas qualidades e quis o destino que fosse assim. Não sou eu que irei julgar as decisões do Todo-poderoso. Acho que até faz sentido eu ser a única filha que meus pais tiveram e eu costumo gostar de ser. Mas, quando vejo uma relação entre irmãos, bate uma solidão por não ter aquele laço. Você pode ser feliz sozinho até olhar como os outros estão felizes se relacionando. Tenho relações próximas, como minhas primas que considero irmãs e, por mais que às vezes elas possam dormir por dias aqui em casa, nós não temos essa ligação rotineira de irmão, as brigas, as piadas, o costume, a intimidade. Há algo mais íntimo nessa vida que um irmão? É sangue do seu sangue, mas mais companheiro que seus pais, uma ligação inquebrável e insubstituível, que nada nem ninguém pode afetar, com quem você pode compartilhar segredos e travessuras, quem fez da sua infância mais alegre e menos solitária.

   Agora se você tem um irmão e menospreza esse laço, o que você está fazendo com a sua vida? Por que jogar fora um presente que tantas pessoas desejam ter e não podem porque não depende deles? Não há nada mais puro que o amor fraternal. Eu tenho uma amiga que não conhece o próprio irmão, já que ele mora em outro estado e é bem mais velho que ela. Penso que deve ser muito triste ser privada dessa companhia, não conhecer alguém tão parecido geneticamente com você. Então, se você tem um irmão, não deixe de aproveitar essa oportunidade. Faça isso por mim e por todos que desejam ter um companheiro de vida.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Morte, sempre ela

  Eu sempre tive medo da morte. Toda experiência que tenho com ela vira obrigatoriamente um texto. Esse aqui está entalado na minha garganta há meses, esperando o momento certo para sair. Tive a certeza que precisava falar sobre isso quando fecharam o caixão. Aquela era última hora de ver o rosto da pessoa amada antes dela partir de verdade. Ela não estava mais ali, seu espírito já havia partido, mas o fato de termos algo para nos agarrar, mesmo que seja físico, vazio e que parece falso e irreal como um boneco de cera, nos faz não querer que aquele último pedacinho da pessoa se vá.
  Quando fecharam o caixão, eu soube que estava acabado, não tinha mais volta. Não haveria mais sorrisos, mais abraços, mais olhares. Estava fechado para sempre.
  Então, como se não bastasse essa dor, meu coração se apertou quando o caixão com o corpo daquela senhorinha simpática entrou naquele compartimento tão frio, cinza, pequeno e solitário. Então era isso, ela ia passar o resto da eternidade ali, sozinha, fechada. Tão irreconhecível como os outros túmulos ao seu redor. Ali parecia que ninguém era especial, que ninguém tinha tocado vidas diferentes. Todos se misturavam e se confundiam, ninguém se destacava. Ela se tornara apenas mais uma e isso doía.

  Tudo aquilo acabou comigo. Eu não quero ficar sozinha daquele jeito. Eu não quero ser esquecida. Não quero me perder no meio de uma multidão morta.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A vizinha

   Parecia um filme de terror. Uma mulher morreu na casa aqui do lado e ninguém notou, apenas uns vizinhos ficaram incomodados com o cheiro horrível de podre e resolveram investigar. Ela já estava morta há duas semanas e ninguém sentiu falta, quase foi enterrada como indigente. Deve ser horrível ser tão sozinha assim na vida que simplesmente ninguém percebe que você sumiu por tanto tempo.
   Ela morava num casarão, sozinha. Aquele lugar imenso só para ela. Imagino o eco que seus pés solitários faziam no chão.
   Comecei a matutar sozinha a causa de sua morte e um dia verbalizei, perguntando ao meu pai se achava que a mulher havia se suicidado. Veja bem, cabeça de escritor vai longe, já pensei em tudo que aquela mulher podia sentir. Meu pai se espantou com minhas palavras e disse que não. Ela já era uma senhora e devia ter escorregado no banheiro e batido a cabeça. Vou admitir que fiquei um pouco decepcionada. Um morte tão... mundana. Eu, que já havia criado toda uma história para aquela pessoa que nem conhecia não imaginava que ela havia morrido de uma forma tão não-dramática. Eu nem sabia se ela era alta ou baixa, gorda ou magra, negra ou branca, qual era a cor dos seus olhos. Só sabia que ela era minha vizinha e que tinha morrido. Que mundo estranho esse que uma pessoa mora tão perto de você e não se sabe nada sobre ela. Me sinto meio culpada por nunca ter dado atenção para os outros na rua.

   Será que ela tinha um antigo romance? Seria homem ou mulher?  Como fiquei curiosa pela sua vida depois de sua morte. Um fato mórbido, talvez isso mostre o quando eu sou estranha. Todo mundo parece ter esquecido dessa pobre senhora agora que está tudo resolvido e eu aqui continuo pensando em como ela era quando viva. Alegre, resmungona? Será que ela gostava de música para encher o vazio daquela casa tão grande? Será que seu espírito permanece ali, esperando por amor? O lugar me chama, cheio de segredos, mistérios e histórias que eu gostaria de ouvir.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Máquina do tempo

  Acho que a vida vale muito mais a pena quando não existem tanto arrependimentos. Ou, pelo menos, quando percebemos que nossos erros nos ajudaram a crescer, e não ficarmos nos martirizando. Quero chegar ao final da minha vida e, quando perguntarem o que eu mudaria se tivesse uma máquina do tempo, eu diria: "nada".
  - Nada mesmo?
  -Nadinha.
  -Não voltaria a nenhum momento se tivesse uma máquina do tempo?
  -Não.
  Infelizmente não sei se serei esse tipo de pessoa. Se me perguntarem, direi que gostaria de voltar para a manhã do dia 24/03/2017. E mudaria tudo. Ou pelo menos poder te abraçar pela última vez.
  Esse foi o dia que levei minha cachorrinha Lore para fazer sua terceira cirurgia. A mais simples de todas, apenas retirar umas pedras dos rins. Ela não sobreviveu.
  Eu deveria ter sentido. Minha Lolo estava tensa, tremendo. Eu deveria tê-la pegado no colo e levado para casa. Não devia tê-la deixado lá, sozinha. Sinto como se tivessem roubado de nós anos juntas. Não era para ela partir tão cedo. Eu não estava nem um pouco preparada para perdê-la.
  Eu ainda não acredito que ela se foi. Passo pela sala esperando vê-la deitada toda abusada no sofá. Fecho a porta do banheiro automaticamente para ela não fazer xixi no tapete. Imagino que ela vá bater na porta do meu quarto para pedir para entrar, com sua carinha meiga e pedinte. Chego em casa e me surpreendo por ela não estar lá balançando o rabinho, latindo e pedindo colo. Tudo parece tão vazio sem a presença desse serzinho. Eu me neguei a aceitar. Perguntei aos céus porque queriam minha princesa como anjinho tão cedo. Provavelmente lá em cima sentiam tanta falta dela quanto eu sinto aqui em baixo. Porque ela era (e é) pura, com o amor mais puro que existe e entendo porque eles a queriam por perto. Mas eu também quero. Eu esperei por um milagre. Esperei me dizerem "foi tudo um engano", "ela voltou à vida". Esperei acordar do pesadelo. Mas o pesadelo era simplesmente a realidade e dessa não tem como acordar. Esperei por qualquer uma dessas coisas por 3 dias, até perceber que não tinha volta.

  Quantos momentos desses ainda passarei na minha vida? Quantas vezes desejarei ter uma máquina do tempo para não perder alguém tão importante para mim? Meu coração está partido e eu sei que será partido no futuro também. Mas não posso evitar de ter medo.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Aos 20 anos

  Sentada à penteadeira, observo meu rosto no espelho e um porta-retratos meu aos 20 anos de idade. Passo a mão pela minha pele enrugada e sinto lágrimas se acumularem nos meus olhos. Não posso chorar, não agora. Minha neta está chegando e nós vamos sair. Sempre gostei de passear, mas há muito tempo não é um garoto que me acompanha para tomar sorvete e flertar, só restou-me minha filha e minha neta.
  Não resisto à tentação de olhar novamente à foto. Sei que vou chorar se vê-la, mas é irresistível. Os olhos daquela garota que um dia fora eu me prendem. Seu sorriso me prende. Oh, eu era tão bonita. Minha pele era macia, meu corpo era magro, meu cabelo era preto. Hoje tenho uma pele caída, um corpo que eu não reconheço e meus dedos do pé se misturam devido ao joanete. O que aconteceu com aquele espírito tão aventureiro? Por que nosso corpo envelhece tão rápido? Eu não estava preparada. Minha autoestima diminuía a cada vez que mais anos eram acrescentados. Chorava achando que meu marido não me acharia mais bonita ou atraente, o meu peito caía, minha pele enrugava, minha barriga foi se tornando flácida, a bunda foi tomada pela celulite. Sempre me diziam: “pare de besteira, você é linda” e eu me perguntava quanto tempo essa beleza ia durar e o que achariam de mim quando ela se fosse. Quem sabe seria mais vantajoso nunca ter sido bonita para não sofrer essa perda. O amor seria capaz de resistir à feiura do cruel tempo? Seria tão forte como no começo quando éramos todos jovens, belos e com uma vida inteira pela frente, com tantos sonhos e tanto fogo nos olhos? Eu amei meu marido até sua morte, até depois dela, mas eu não me amava. Eu odiava o que via no espelho, o que havia me tornado.  
  Minha neta entra para atrapalhar meu pensamentos. Ela é linda, tão linda quanto eu fui. Tenho vontade de falar para ela aproveitar ao máximo sua juventude e beleza, para se cuidar para não ficar que nem a avó. Mas sei que ela não vai me escutar, nenhum jovem escuta, em qualquer geração. Eu não ouvi quando minha avó falou.
  Talvez seja tudo uma futilidade para os moralistas que dizem que a beleza não importa. Não nego que não é só a beleza que faz o amor e eu mesma não tinha só essa qualidade, graças a Deus, mas em questão de autoestima, a minha sempre foi baixa, e ter um corpo jovem ajudava a situação a não piorar.
  Aproveite o sol, mas passe protetor para não ter essas manchas que eu tenho. Se alimente bem, faça exercícios, cuide da pele.
  Mas nenhum jovem quer seguir certinhos essas ideias. A vida é muito curta para se preocupar tanto com como você se parecerá no futuro. Só ansiosos como eu eram capazes de chorar ao 18 anos de idade por pensar em como será quando ninguém mais lhe achar desejável, quando você só for “a velhinha fofa que dá vontade de apertar”, mas ao mesmo tempo não querer largar o chocolate ou passar aqueles incontáveis cremes antes de dormir porque está com preguiça.
  Bem, esqueça os conselhos. Corra, minha menina, enquanto suas pernas são ágeis. Abrace forte aquela pessoa amada enquanto pode. Chore e sorria sem medo das rugas. Dance e cante bastante antes de perder a energia. Não se preocupe com a velhice. Eu me preocupo por ela o suficiente por nós duas.
-Tá pronta, vó? – Ela me pergunta.
  Passo meu perfume e coloco meu colar de pérolas. Minhas unhas estão pintadas de um rosa claro. Posso estar velha, mas minha vaidade não me deixa desistir de parecer pelo menos um pouco bonita e desejável novamente. Me levanto, dou um abraço nela e sorrio. Não poderia não passar o batom, então nada de beijos.
- Estou sim, minha querida.

  Ela me dá o braços e antes de fechar a porta ao sair olho novamente para eu mesma aos 20 anos. O que aquela menina diria? Acho que ela também diria que está pronta, seja para o que for.